USO DE ORELHÕES PÚBLICOS É CADA VEZ MAIS RARO NO RECIFE

José Gondim Macedo tem 69 anos e desde 1975 sobrevive das vendas de um fiteiro na Praça da Independência, Centro do Recife. Diariamente, faça chuva ou faça sol, Seu José encara a lida vendendo produtos variados, comuns a este tipo de negócio informal. Um deles, não se encontra mais no fiteiro: os cartões telefônicos. O pedido mais recente ao fornecedor, a concessionária Oi, foi há mais de dois meses e ele não pretende mais vendê-los. A razão é simples, falta de comprador. 

No local onde Seu José ganha o pão de cada dia, uma das mais movimentadas do Centro, haveria motivos para ele não abandonar a venda dos cartões telefônicos. São cinco orelhões da Oi instalados na praça. A reportagem do Diario testou os aparelhos e somente dois funcionaram, três estavam sem linha. No sistema de rastreamento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), porém, constam os mesmos cinco orelhões, sendo quatro “em manutenção” e um funcionando. 


A realidade, dura para uns, que não elevam os lucros com a venda dos cartões em fiteiros, bancas de revistas e jornais, mercadinhos – os que mais sentem – e casas lotéricas (as que menos sentem) é o reflexo atual de um serviço público que outrora foi essencial para a população. Com a telefonia móvel (celulares) cada vez mais forte no setor das telecomunicações, cuja tecnologia despeja aparelhos ultramodernos anualmente no mercado, o uso de orelhões está praticamente extinto. 

“Sou do tempo da ficha nos orelhões e vi a mudança para os cartões. Até alguns anos atrás, as vendas deles correspondiam a cerca de 10% do meu lucro. Hoje é zero. O cartão que mais saía, o de 20 ligações, eu comprava por R$ 4,50 e vendia a R$ 5,50, as pessoas achavam caro. Além disso o serviço é péssimo, muitos aparelhos não funcionam. Não faz mais sentido vender cartões, todo mundo tem celular”, explicou Seu José. 



Luzinete Silva, 49, vendedora ambulante há 20 anos, é outra dona de fiteiro que atua no Centro. Desde 2010, ela ganha dinheiro com as vendas no ponto comercial informal, na Rua do Imperador. No local de trabalho, havia apenas dois cartões telefônicos de 20 ligações quando a reportagem conversou com a vendedora ambulante. E, acredite, de 2013, ano em que ela realizou o último pedido aos fornecedores da Oi, única operadora com a concessão do serviço em Pernambuco.

O fenômeno é o mesmo retratado no início desta reportagem: falta de compradores, entenda-se usuários, serviço inoperante, na opinião de muitos entrevistados, e telefones celulares ao alcance das mãos (e dos bolsos) da população. Na Rua do Imperador, foram encontrados sete orelhões. Testados pela reportagem, quatro funcionavam (vazios, sem usuários) e três não deram linha. Pelo sistema da Anatel, constam cinco operando normalmente e somente dois “em manutenção”. 

“Vendia até 20 cartões por dia, mas faz mais de cinco anos isso. Desde 2013, vendi um ou dois por mês. Ganhava R$ 1,15 na venda no de 20 ligações. Quem colecionava, comprava, mas hoje os cartões são padronizados. Vender pra quê? Todos têm celulares e botam qualquer valor de recarga, é mais barato”, diz Luzinete. Segundo a Anatel, 62% dos orelhões processam até duas chamadas por dia, em média, considerando as recebidas no orelhão e realizadas (inclusive as gratuitas e a cobrar).



O montador Cleiton Pereira, 38, é daqueles que deixou de gastar dinheiro com cartão telefônico. No momento em que a reportagem tentava descobrir um usuário nas ruas do Recife, ele estava usando um orelhão na Rua Nova, também no Centro. “Não compro faz uns quatro anos e só usei o orelhão por que precisei ligar para um serviço bancário 0800. Na emergência ele ainda serve, mas tem poucos em muitos lugares e as operadoras de celular dão muitos bônus”, revelou. 

Perdas
A falta de manutenção e pouca oferta causa prejuízos. Caso dos taxistas. Na Praça do Entrocamento, nas Graças, Zona Norte, há só um aparelho, no ponto de táxi. Quebrado. No sistema da Anatel, constam quatro “em manutenção” e um operando. “Fizeram a manutenção há 20 dias e ontem parou de funcionar. Para nós é importante, pois os passageiros pedem o número do orelhão para solicitar táxi quando um companheiro está em corrida”, conta Edson Ribeiro, 49, taxista cuja base é no local.    

Procurada, a Anatel respondeu, através de nota, afirmando que tem “desenvolvido estudos e pesquisas para buscar alternativas viáveis para o redimensionamento e modernização desses acessos coletivos, de modo a transformá-los novamente em importantes equipamentos de utilidade pública”. Destacou, ainda, “a importância do serviço disponibilizado por esse acesso coletivo, sobretudo em situações de emergência”. Os (ainda) usuários que desejam obter informações sobre os orelhões podem acessar o sistema Fique Ligado.    



Operação e manutenção
Criados em 1971, os orelhões ainda estão espalhados pelas ruas de todo o país. Em Pernambuco, segundo o sistema de monitoramento da Anatel, há 36.376 aparelhos, incluindo os adaptados para cadeirantes (455) e deficientes auditivos e da fala (78). No Recife, aponta a agência nacional, são 5.908 orelhões, sendo 148 adaptados para cadeirantes e 33 para deficientes auditivos e da fala. Parece muito, mas na prática é pouco, considerando o alto número de aparelhos sem funcionar. 

A manutenção dos orelhões, aliás, é obrigação da concessionária. Quando não cumpre as metas de atendimento e qualidade do serviço, é penalizada com as ligações gratuitas dos aparelhos. Foi o que ocorreu na última semana, quando além de Pernambuco mais 14 estados onde a operadora atua foram beneficiados com a medida. A gratuidade permanecerá até que a Oi volte a atender os patamares técnicos exigidos pela Anatel.

Em nota oficial enviada pela assessoria de comunicação, a Oi disse que “cumpre a determinação de conceder a gratuidade em chamadas para telefones fixos locais, feitas a partir de sua rede de telefonia pública nos 15 estados indicados pela Anatel”. Sobre a qualidade do serviço e oferta de aparelhos, a concessionária afirmou que eles “sofrem, diariamente, danos por vandalismo” e que “em 2014 foram danificados, em média, 10% dos 38 mil orelhões instalados em Pernambuco”.

Fonte Diário de Pernambuco