Sindicância vai apurar causas da rebelião

Funase quer saber o motivo da confusão que deixou um adolescente morto na sexta-feira


Será aberta hoje a sindicância que vai apurar as causas da rebelião na Funase de Abreu e Lima, ocorrida na última sexta-feira. A investigação, porém, ainda não tem data para ser concluída. Ontem, o secretário em exercício da Secretaria da Criança e da Juventude, Fernando Silva, garantiu rigor na apuração das denúncias de agressão sofrida pelos adolescentes na unidade. O primeiro dia de visitas depois do tumulto que terminou com a morte do interno José da Silva, 17, foi considerado “tranquilo” pelos familiares dos reeducandos. Essa foi a terceira rebelião na unidade desde janeiro. As outras aconteceram em maio e setembro, deixando dois adolescentes mortos e três agentes feridos. Só neste ano, sete internos já perderam a vida e dez pessoas ficaram feridas, cinco delas agentes, após motins em unidades da Funase.

 Segundo relatos de familiares dos adolescentes, a rebelião pode ter sido uma represália a uma sessão de espancamento ocorrida na semana passada, envolvendo cerca de dez jovens. “Os agentes meteram a porrada. Fiquei sabendo que a situação tinha sido contornada, depois da rebelião, aí aproveitei para fazer a visita hoje (ontem)”, disse Ângela dos Santos, 38, mãe de um interno de 16 anos apreendido por ato infracional correspondente a assalto. “Isso será investigado. A apuração será rigorosa. Sendo comprovada, haverá responsabilização”, contou Fernando Silva. Três agentes já foram afastados suspeitos de participarem do espancamento.

 Hoje, 85% dos internos atendidos nas 19 unidades da Funase vêm de apenas 30 dos 184 municípios pernambucanos. O plano plurianual da Secretaria da Criança e da Juventude, orçado em R$ 85 milhões, prevê a construção de 13 novas unidades no Cabo de Santo Agostinho, em Arcoverde, Garanhuns, Paulista, Olinda, Recife e em Jaboatão dos Guararapes. Se tudo ocorrer como o planejado, a previsão é de que tudo fique pronto até o final de 2014, ampliando o sistema. Atualmente, a rede que atende os adolescentes infratores do estado acolhe pouco mais de 1,4 mil internos.

A unidade de Abreu e Lima abriga 243 jovens, quase o triplo da capacidade, 98 adolescentes. No local vivem internos com idades entre 15 e 17 anos e seis meses. A superlotação é apontada como uma das principais causas das rebeliões. “Nós precisamos de uma mudança estrutural. Estamos construindo novas unidades e avançando no diálogo com os municípios”, completou. Com a inauguração dos novos centros, a meta é redistribuir os jovens. “Com a construção, nós teremos possibilidade de desenvolver um novo modelo, estabelecido pelo Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase)”, finalizou o secretário Fernando Silva.

A Funase garantiu que vai custear o velório e o enterro do interno José da Silva, 17 anos, morto no motim. Ele foi decapitado e teve o corpo esquartejado e queimado. Parte dos restos mortais foram arremessados por cima do muro da unidade. O prédio de Abreu e Lima conta com 13 alas. A última rebelião começou na ala 5 e teva adesão de outras sete. Apenas os jovens abrigados em cinco delas não aderiram ao motim, que só foi controlado com a chegada dos militares do Batalhão de Choque.

Depoimentos

"A visita transcorreu sem problemas. Aproveitei para trazer feijão, macarrão, bermudas e camisas. Meu filho está aqui há 1 ano e 2 meses.”

Luciene de Lima, 48, dona de casa

"Na última quarta, o meu filho foi agredido por um agente socioeducativo. Ele ainda está com um machucado na testa. Ninguém tem o direito de bater nele.”

Miriam da Silva, 33, diarista

"Vim visitar o meu filho hoje (ontem) porque soube que houve espancamento na unidade na semana passada. Os meninos falaram que os agentes bateram muito neles”

Angela Maria dos Santos, 38, dona de casa

Saiba mais

30 novembro - Funase de Abreu e Lima

1 adolescente morto. Ele foi decapitado e seu corpo foi esquartejado e queimado.

Parte dos restos mortais foram arremessados para o lado de fora da unidade

Os internos atearam fogo em colchões e no mobiliário.

O Batalhão de Choque foi acionado e chegou a usar gás lacrimogênio para controlar a situação

16 novembro - Funase do Cabo de Santo Agostinho

1 interno morto e 2 feridos, após rebelião motivada por briga entre grupos rivais 70 homens do Batalhão de Choque entraram no prédio e controlaram o motim

1º  setembro - Funase de Abreu e Lima

A rebelião terminou com a morte do adolescente Yuri Wilker Vieira de Lima, 16 anos, que teve o corpo queimado

O tumulto começou por volta das 21h e só foi controlado  às 23h, com a entrada do Batalhão de Choque.

Os jovens queimaram colchões e danificaram o refeitório

28 de maio - Funase de Abreu e Lima

1 jovem morto a pauladas e 3 feridos

3agentes socioeducativos também ficaram feridos

A confusão teria sido motivada por brigas entre internos dos pavilhões 8 e 11

23 de maio - Cenip, no Recife (bairro do Bongi)

5adolescentes e 2 agentes feridos após motim

A confusão teve início na Ala 1 da unidade

10 de janeiro - Funase do Cabo de Santo Agostinho

3adolescentes mortos, após rebelião no Pavilhão “A”.

Os policiais encontraram o corpo de um dos adolescentes pendurado numa trave de futebol

3 agentes socioeducativos chegaram a ser feito reféns

1 PM ficou ferido do lado de fora da unidade, após ser atingido por uma pedrada

Fonte: Diário de Pernambuco